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     Não é de hoje que se percebe nitidamente o quanto as transformações tecnológicas têm
modificado o dia-a-dia das pessoas já que em qualquer tarefa, simples ou sofisticada, e mesmo nas
rotineiras, a presença da evolução tecnológica é cada vez mais comum.
     

     Um dos poucos espaços que ainda tem a mesma dimensão e concepção praticamente
idênticas há séculos é a escola: um professor na frente de dezenas de alunos, alinhadamente
sentados e ouvindo os conteúdos a serem trabalhados. Porém, a escola vem buscando novas
metodologias de ensino, mas isto não implica em dizer que a figura do professor será transformada
em algo obsoleto. A busca é pela inovação, pela inclusão de aparatos tecnológicos que possam
auxiliar o professor no seu trabalho de ensinar, tornando o processo de aprendizagem por parte do
aluno em algo mais próximo de sua realidade e consequentemente mais agradável. Afinal, como é
possível que um professor, apenas com quadro, giz e cuspe (ou seja, as aulas tradicionais), faça
frente à televisão, cinema, internet, revistas e toda uma parafernália de mídia e tecnologia muito
mais atrativas?

 

     Sabe-se que hoje pelo menos 50% das escolas municipais e estaduais já possuem
laboratórios de informática (ainda que defasados, já que a vida útil de um laboratório é de cerca de
3 a 4 anos) e praticamente 100% destas escolas já disponibilizam de recursos visuais, tais como
televisão e vídeo/DVD para auxiliar o ensino e a aprendizagem em sala de aula. Nas escolas
particulares a realidade geralmente é outra, além de normalmente existirem equipamentos
adequados, e em maior quantidade, o uso destes recursos é também muito mais frequente.
Entretanto, resta a ressalva de que o que se vê em uma grande parcela de escolas com parcos
recursos, via de regra, é um professor despreparado tecnologicamente e que não consegue utilizar
adequadamente os recursos de que se dispõe na atualidade, e consequentemente o aluno se vê alheio
às poucas tentativas que são propostas em sala de aula.

 

     O trabalho com diferentes recursos didáticos pode auxiliar o processo ensino-aprendizagem
se forem corretamente utilizados. O resultado pode ser aulas diversificadas, estudantes mais
participativos e um olhar diferente sobre os recursos e ferramentas com as quais entram em contato
diariamente, fora da escola. A linguagem visual veiculada pelos filmes pode auxiliar o trabalho com
diferentes conteúdos. Percebe-se que muitos deles retratam, focalizam, diversos elementos que se
relacionam com os variados campos de saber da sociedade e isto pode, e deve, ser devidamente
explorado. Segundo Tajra (1998, p. 48), a sua utilização "está diretamente relacionada à capacidade
de percepção do professor em relacionar a tecnologia com sua proposta educacional". É notório que
a força e a facilidade de leitura das imagens, sem dúvida alguma, pode ajudar a compreender
melhor todo o contexto a que se refere à aula e ao que o aluno assistiu na tela. Ainda que o foco seja
o espaço para a linguagem visual inegável a camada verbal inerente aos filmes, assim no caso da
Língua Portuguesa, por exemplo, o filme poderá ser estímulo para ela e não seu substituto, pois
exige do leitor uma interpretação da realidade tomada como referência enquanto discurso ficcional,
ou mesmo da realidade que o cerca. O trabalho com a linguagem visual dos filmes no Ensino
Fundamental e Médio, nas diversas disciplinas, pode explorar períodos históricos, as marcas
enunciativas deixadas pelos produtores do filme, a interpretação das imagens, saberes
interdisciplinares e valores educacionais e didáticos. Segundo Metz (1971), a linguagem do cinema
é uma importante ferramenta de auxílio didático ao professor, desde que ele saiba como utilizá-la.

 

     Nessa perspectiva existe a possibilidade de utilizar quaisquer filmes comerciais como
recursos complementares nas aulas desde que sejam corretamente contextualizados. Trata-se de um
recurso atrativo, agradável e que, se bem empregado, rende bons resultados quanto à aprendizagem.
O aluno tem maior participação, passa a ter um novo olhar a respeito dos recursos e ferramentas que
dispõe no seu dia-a-dia. Elementos que são aparentemente banais e sem propósito podem passar a
serem vistos de forma crítica. No caso específico dos filmes há a possibilidade de relação direta
com a literatura, porém, dependendo do recorte feito, pode-se aliar ainda a quaisquer outras
disciplinas, por vezes possibilitando um trabalho interdisciplinar, de forma complementar,
focalizando temas que podem englobar os vários campos de saber da sociedade. O fato de a imagem
ser muito mais rapidamente percebida e recebida permite que o processo de assimilação por parte
do receptor possa ser também mais rápido. Hoje, vive-se numa sociedade imagética, em que a base
das informações é por meio visual, e deve-se portanto aproveitar o que há de melhor nesse meio. O
filme pode ser um estímulo para uma aprendizagem mais ampla de determinado assunto, visto que
o cinema incorpora diversas linguagens abrindo inúmeras possibilidades semióticas de percepção da
realidade circundante. Pode-se trabalhar a linguagem visual dos filmes explorando as possibilidades
de interpretação de suas imagens, diálogos, reconstrução de períodos históricos, as marcas
enunciativas, as relações pessoais e sociais, os possíveis valores morais, éticos, educacionais e
didáticos. Caso o professor saiba como utilizar essa linguagem, essencialmente visual mas que
engloba ainda a verbal, torna-se uma ferramenta poderosíssima em suas mãos, enquanto auxílio
didático.

 

     Assim há uma verdade que não pode ser negada: a cada dia se usa mais o cinema na sala de
aula. A questão não é quanto a ser utilizado ou não este recurso, mas sim se a sua utilização é feita
de forma eficiente ou não. Por experiência pode ser afirmado que há algumas formas equivocadas
quanto à sua utilização. As principais são geralmente por desconhecimento ou falta de um maior
rigor quanto ao critério adotado. Deve-se, porém, considerar que o uso do filme deve ser de forma
racionalizada evitando os erros comuns de usar filmes sem critérios.

 

     Via de regra, há o vídeo tapa-buraco, utilizado em qualquer escola na eventual falta de um
professor. Não foram poucas as vezes em que foi vivenciada esta situação. Muito comum quando
ocorre a falta do professor da disciplina solicitar-se a um outro qualquer, que esteja sem aula, que
vá tomar conta da turma passando um vídeo para ocupar o tempo. Agrava-se o fato se for
considerado que também como regra há uma parca videoteca, que já foi exaustivamente utilizada
em outras inúmeras situações idênticas, ou seja, o filme, invariavelmente foi visto (mais de uma
vez, diga-se de passagem) pelos alunos que, mais que certo, não querem revê-lo apenas para poder
preencher o tempo.

 

     Há também a situação em que se passa o filme sem que haja objetivo algum que não o da
diversão. Também são incontáveis as vezes em que foram pedidas sugestões de filmes para serem
utilizados em alguma semana disso ou daquilo, evento esse ou aquele, e cujo propósito é apenas o
de "passar um filme legal para os alunos se divertirem". Cai-se no vazio e perde-se uma excelente
oportunidade de utilizar um tempo, sempre valioso, com um filme divertido, que preencha o tempo,
sirva como distração, entre na programação do evento mas que também venha a ser posteriormente
discutido, tendo alguma finalidade didaticamente interessante.

 

     Outra situação é a do professor que quer ser o inovador, o verdadeiro show, e descobre que
os filmes são um recurso atrativo e geralmente muito bem aceito pelos alunos. O gosto da novidade,
da inovação em relação às aulas cuspe-e-giz, faz com que esse professor utilize o recurso em
excesso. Da mesma forma que age uma criança que ganha um brinquedo novo e não quer largá-lo
nem para comer ou dormir, é esse professor que passa a utilizar os filmes (ou qualquer outro
recurso) a todo o momento. Assim como tudo na vida, o excesso também não é bom. A novidade
perde o sabor muito rápido caso seja utilizada em excesso, e principalmente se for sem critérios.

 

     Muito próximo disso é o professor que utiliza o vídeo como substituto de suas aulas. Em vez
de dar a aula, coloca o vídeo e espera que o mesmo dê conta do conteúdo sozinho. Acredita que o
vídeo fale por si mesmo e que não é necessário mais nada. Sua função passa a ser um mero passador
de vídeos. Aqui tem o conteúdo necessário e basta, acredita ele.

 

     Também há aquelas situações comuns em final de bimestre, por exemplo. Acabaram-se os
conteúdos, ainda há uma carga horária a ser cumprida, e fica a pergunta do professor: o que fazer?
A saída (que como dito acima é interessante, inovadora, agradável e que serve para ocupar este
espaço) geralmente é programar um filme. Usa-se o popular "encher-linguiça". Passa-se o filme e
não se tem qualquer objetivo que não seja o de ocupar as aulas finais com alguma coisa interessante
e que mantenha os alunos calmos o suficiente para que a sala continue intacta.

 

     Por fim há aqueles professores que não utilizam o vídeo como um recurso auxiliar por
encontrar defeitos em todo e qualquer vídeo. Um é falho enquanto conteúdo, outro enquanto
aspecto visual, outro enquanto técnica, outro enquanto aprofundamento de temas, enfim, há uma
ressalva, ou mais, em relação a qualquer vídeo que se deseje utilizar. É o professor que espera o dia
em que tenha o vídeo perfeito, irreparável. Geralmente trata-se de um subterfúgio para esconder a
própria inépcia ou falta de vontade de utilizar os vídeos como complementação.

 

     Seja qual for o perfil do professor, deve-se considerar que o vídeo pode, e deve, ser
utilizado, porém com planejamento e de forma racional, com critérios e nunca como um substituto
das aulas, do professor ou do conteúdo. Trata-se de um recurso auxiliar, complementar, e deve ser
trabalhado como tal.

 

     Também é necessário considerar alguns cuidados que devem existir quando se trata de
escolher um filme. Lógico que qualquer filme pode ser utilizado com a finalidade de uma posterior
discussão, porém há filmes mais adequados e mais indicados para públicos específicos.

 

     Um dos maiores problemas na escolha de um filme é diretamente relacionado à censura. Por
vezes alguma cena que contenha nudez (ainda que muito sutil), violência (mesmo que menor que o
que se vê nos jornais diários), palavras de baixo calão (até aquelas que sejam conhecidas e
utilizadas por todos que estejam vendo ao filme) e coisas do gênero podem gerar transtornos
significativos caso não haja um trabalho adequado de preparo em relação ao filme. Acredite, uma
cena dessas, ainda que contenha apenas um minuto, pode ser a que mais será lembrada em um filme
de 150 minutos. Assim, é necessário, sempre, assistir anteriormente ao filme, selecionar o que será
trabalhado, e, previamente alertar e preparar o público para o que será assistido. Portanto a regra é:
adequar filmes a espectadores que tenham o discernimento e a maturidade adequados aos mesmos.
Desta forma serão evitados maiores inconvenientes posteriores.

 

     Outro cuidado que deve existir é com relação à veracidade das obras. Todos os filmes são
apenas uma representação do real, trata-se da realidade transposta para a imagem pelo ponto de
vista de algumas pessoas que o realizam, e mesmo os filmes que se propõem a realizar um resgate
histórico fiel, caso dos documentários, possuem sempre uma visão segmentada. Assim, os filmes
são uma base representativa para poder ser analisada a realidade, e nunca devem ser vistos como
representantes fiéis de fatos e acontecimentos, por mais verossímeis que sejam.

 

     Uma pergunta que sempre é feita, constantemente, diz respeito quanto ao uso dos filmes
utilizando-os em sua forma integral ou selecionando alguns trechos e passando apenas o que foi
previamente selecionado. Trata-se de uma questão complexa por vários motivos, entre eles qual seu
objetivo final e qual sua disponibilidade de tempo. Particularmente fica a defesa quanto a passar a
versão integral do filme, já que se forem utilizados apenas trechos, por mais significativos que
sejam, acaba-se por perder muito enquanto contexto.

 

     A questão de tempo é também fator preponderante. Um curta-metragem pode ser
utilizado/visto a qualquer momento e sem maiores transtornos, enquanto que um filme de longa
metragem, por vezes, fica inviabilizado por não se ter tempo disponível para o mesmo. Planejar
adequadamente o que será trabalhado, e qual o tempo disponível é essencial para uma atividade
produtiva. Se necessário, estabelecer parcerias com outros professores, ou solicitar que o filme seja
assistido em outra oportunidade, dando uns dias para que isso seja providenciado, também pode ser
uma solução.

 

     Independente de como será assistido o filme, deve-se sempre considerar que há a
necessidade de adequá-lo à proposta desejada. Também se deve expor quais os objetivos desejados
e como se espera alcançá-los. Sempre considerando a cultura cinematográfica dos
alunos/espectadores, que é um fator que também deve ser considerado, já que filmes mais
complexos exigem percepções estéticas mais elaboradas para abordar as relações construídas.
Assim como livros mais complexos exigem um leitor preparado, filmes mais complexos exigem um
leitor da linguagem cinematográfica também devidamente preparado. Aliás, no caso de adaptações
literárias para o cinema deve-se lembrar sempre que filmes servem como elemento complementar,
com outra linguagem, e algumas possíveis limitações, mas nunca como substituto.

 

     Ter uma videoteca razoavelmente rica também é essencial para não correr o risco de acabar
repetindo filmes desnecessariamente, assim como se deve ter um ambiente confortável e agradável
para que sejam passados os filmes escolhidos.

 

     Deve-se portanto cuidar na escolha dos filmes, principalmente em relação a temas polêmicos
que possam gerar controvérsias graves, como valores culturais, morais e religiosos. Discuti-los não
implica em defender um ou outro ponto de vista específico, mas sim expor diferentes formas de
pensamento, escutar outras formas de pensar e respeitar a todas, sem gerar conflitos.

 

     Os objetivos ao trabalhar com os filmes devem ser bem claros, e sempre voltados para a
apresentação ou complementação de conteúdos. Se possível utilizar os temas de forma
interdisciplinar, interligando com outras disciplinas e buscando a horizontalização na discussão dos
assuntos abordados. Para isso pode-se utilizar o conteúdo (enredo/narrativa), a linguagem
(verbal/visual/sonora), os aspectos técnicos, os temas e desdobramentos temáticos possíveis.

 

     Como exemplo, numa possível relação cinema/História, se o momento estudado em aula é a
"Época dos Descobrimentos", no final da Idade Média; ou, em Literatura esteja sendo estudado o
Classicismo, um filme indicado no site e que poderia ser utilizado é 1492 - A Conquista do
Paraíso. Trata-se de uma obra longa, com 140 minutos, mas uma produção cuidadosa e envolvente,
do início ao fim. O filme poderá introduzir, complementar ou reforçar os assuntos citados.

 

     Se o assunto ainda estiver para ser estudado pode-se utilizar o filme com a finalidade de
mostrar a época e a visão de mundo de então, como forma de introdução a estes aspectos. Se estiver
ocorrendo o processo de trabalho com os conteúdos, o filme serve para sair um pouco da teoria,
leitura verbal, e proporcionar aos alunos uma visão sobre o assunto utilizando a imagem para a
construção da realidade tratada. Caso o conteúdo já tenha sido trabalhado, o filme pode ser utilizado
como reforço do que foi estudado.

 

     A forma de trabalho e cobrança pode ser através de debate (lembre-se que um filme
contextualizado gera muitos comentários principalmente fora de sala de aula entre os alunos);
produção textual, individual ou coletiva; pesquisa acerca do assunto destacado (ou vários assuntos)
buscando aprofundar mais o que foi visto; enfim, a idéia é que o filme funcione como suporte e
auxílio didático proporcionando ao aluno o despertar do espírito da pesquisa, não se limitando
apenas às aulas, e ao conteúdo do livro didático, mas procurando outras fontes de pesquisa e estudo.

 

     Neste exemplo, ainda poderiam ser trabalhados assuntos como: os dogmas religiosos da
Idade Média; a influência do catolicismo/religiosidade na vida medieval; a vida de Colombo; a
aculturação indígena; a mudança da sociedade da visão teocêntrica para a antropocêntrica, entre
outros mais. Percebe-se neste exemplo que mesmo que existam algumas linhas de trabalho
sugeridas isto não significa que se esgotem as possibilidades de trabalho com o filme. Sempre
poderá haver algum aspecto, nem sempre explícito, que pode ser trabalhado em sala. Existem
alguns caminhos, mas nem todos são explicitados, e cabe ao professor buscá-los, acrescentá-los,
explorá-los da forma que julgar mais adequada a seus métodos.

 

     Ressalte-se ainda que pode ser realizado um trabalho em conjunto com diferentes
disciplinas, como citado acima. Neste caso específico, um filme com duas horas e vinte minutos
obrigatoriamente deve considerar pelo menos três horas/aula para que seja devidamente preparada a
turma, seja passado o filme e façam-se os primeiros comentários sobre o mesmo. Sendo assim, nada
melhor e mais prático do que envolver mais de uma disciplina neste trabalho. Em suma, os
professores utilizam um mesmo filme e trabalham com o mesmo em diferentes disciplinas.
Seguramente pode-se afirmar que os resultados serão nitidamente positivos.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

1492 - A CONQUISTA do Paraíso. Direção: Ridley Scott. Produção: Alain Goldman e Ridley
Scott. Roteiro: Roselyne Bosch. Intérpretes: Gérard Depardieu; Armand Assante; Sigourney
Weaver; Loren Dean. EUA/Inglaterra/França/ Espanha: Paramount Pictures, 1992. 1 filme (155
min), son., color. DVD.

 

CASTILHO, Áurea (cord.) et al. Filmes para ver e aprender. Rio de Janeiro: Qualitymark, 2003.

 

METZ, Cristian. Linguagem e cinema. São Paulo: Perspectiva, 1971.

 

MODRO, Nielson Ribeiro. Cineducação: usando o cinema na sala de aula. Joinville: Casamarca,
2005.

 

_______. Cineducação 2: usando o cinema na sala de aula. Joinville: Univille, 2006.

 

NAPOLITANO, Marcos. Como usar o cinema na sala de aula. São Paulo: Contexto, 2003.