Terra de Ninguém

Gênero: Drama.
Atores: Branco Djuric, Rene Bitorajac, Filip Savagovic, Katrin Cartlidge, Simon Callow e Sergehenri Valcke.
Diretor: Danis Tanovic.
Idiomas: Inglês e Português.
Legendas: Português, Inglês e Espanhol.
Ano de produção: 2001.
País de produção: Bélgica.
Duração: 93 min.
Distribuição: Imagem Filmes.
Região: 4.
Áudio: Inglês Dolby Digital 2.0.
Vídeo: Full Screen (4:3).
Cor: Colorido.
Censura: 14 anos.

Ciki (Branko Djuric) e Nino (Rene Bitorajac) são dois soldados de um mesmo povo porém em lados opostos em meio à Guerra da Bósnia. Um é bósnio e o outro é sérvio. Numa situação que beira o surrealismo, ambos acabam por ficar ilhados numa trincheira em meio à fronteira da guerra, uma “terra de ninguém”, e são forçados a negociar por suas vidas para conseguirem sobreviver. Não podem deixar o local sem correr o risco de levar um tiro e ainda precisam negociar com um soldado ferido, que está sobre uma mina e ameaça explodir o local caso eles se movam. Não há em quem confiar.

Primeiro filme bósnio a ganhar um Oscar, no caso de melhor filme estrangeiro - 2002, e que focaliza o conflito iniciado em 1992 quando a Bósnia tentou tornar-se independente e os sérvios da Iugoslávia reagiram com armas. Este foi o conflito europeu mais sangrento após a Segunda Guerra, resultando em 200 mil mortos e 2,5 milhões de refugiados. Seu término foi apenas em 1995, com a assinatura de um acordo estabelecendo repúblicas independentes. Seu enredo apresenta um filme de guerra diferente dos tradicionais, já que o que se mostra não são batalhas épicas e sim o espírito da guerra, aquilo que vai dentro da cabeça de cada um que a vivencia. Trata-se de uma visão contundente e chocante sob um outro prisma da guerra, o aspecto psicológico e o choque pelo fato de serem soldados que lutam em lados opostos do que foi um mesmo país. É simples porém eficiente em mostrar o conflito nos Bálcãs dos anos 90. Não faltam referências históricas de situações idênticas e que por vezes levam parentes próximos a viverem situações de segregação como esta. Também retrata o panorama das delimitações geográficas constantemente redimensionadas na história da humanidade, e os conflitos gerados. Há um reduzido número de personagens que representam as principais partes que se fizeram presentes nesta guerra, bósnios e sérvios se degladiando e a ONU e a imprensa apenas acompanhando o conflito, todos na mesma tragédia apresentada com críticas ácidas e certeiras. A jornalista que transforma o caso, local, em um impasse mundial tem interesse apenas na notícia. A intervenção da ONU, representada pelo sargento que fica ciente do que ocorre e resolve tentar ajudar, apesar das instruções recebidas de não intervir em conflitos locais, critica diretamente o posicionamento de ajudar sem realizar ação alguma. Aliás, trata-se de uma cena vivenciada pelo diretor Danis Tanovic, que testemunhou um soldado da ONU escutando música, tranqüilamente sentado num tanque em Sarajevo, enquanto as pessoas em sua volta corriam para não serem atingidas por balas, afinal a ordem que recebera era a de não intervir no conflito. No meio desse panorama, ficam os soldados desejando salvar suas vidas, mas impossibilitados disso. Interessante notar que os atores que personificam estes poucos personagens são de uma mistura bastante grande: Branko Djuric, que interpreta Ciki, é bósnio, seu inimigo no campo de batalha, o sérvio Nino, é representado por um croata, Rene Bitorajac. Some-se Katrin Cartlidge, a repórter do filme, e Simon Callow (Coronel Soft) que são ingleses e mais uma equipe composta por pessoas da Sérvia, Eslovênia, Montenegro, Bélgica, Inglaterra, França, Grécia, Suíça e Holanda. Essa miscigenação racial na produção, cujas cenas de estúdio foram rodadas na Bélgica e as demais na Eslovênia, apenas reforçam a situação surreal de uma guerra entre povos irmãos. Não há dúvidas de que Terra de Ninguém foi realizado por quem conhece e viu de perto a história da guerra entre sérvios e bósnios. A situação inusitada em que se encontram Ciki e Nino beira o absurdo já que são inimigos, não têm para onde fugir, precisam ser salvos conjuntamente pela força de paz, e precisam fazer o impossível que é confiar em seu inimigo. As reviravoltas no relacionamento dos dois, entre desejos de matar intercaladas com tréguas, são uma realidade cruel de sobrevivência. A tragédia, representada com uma boa dose de humor negro, é um caminho que acerta em cheio ao que se propõe ao criticar a guerra e a mídia. Afinal todos assistem o que ocorre, apenas esperando o desfecho desse espetáculo tragicômico e absurdo, e infelizmente baseado em um conflito real.